
Frankenstein de Guillermo del Toro: A Obsessão de Uma Vida Ganha as Telas em Veneza

Frankenstein de Guillermo del Toro: A Obsessão de Uma Vida Ganha as Telas em Veneza
A Mostra de Veneza 2024 fervilhava. Entre murmúrios e aplausos contidos, o público aguardava ansiosamente. Era a hora de testemunhar a materialização de um sonho de décadas, uma paixão que consumiu quase toda a vida de um dos maiores contadores de histórias do cinema contemporâneo: Guillermo del Toro. Seu aguardado “Frankenstein” finalmente faria sua estreia no prestigiado festival, prometendo uma experiência cinematográfica tão grandiosa quanto a expectativa.
Um Sonho que Virou Religião: A Ligação de Del Toro com Frankenstein
Para Guillermo del Toro, “Frankenstein” não é apenas mais um projeto; é a culminação de uma obsessão iniciada na infância. Aos sete anos, o impacto do filme de 1931 de James Whale foi indelével. Aos onze, aprofundou-se na obra original de Mary Shelley, e ali, a semente de uma devoção foi plantada. “Mais que um sonho, foi uma religião para mim desde criança”, revelou o diretor à imprensa. “Fui criado muito católico, mas nunca entendi os santos. Quando o vi na tela, compreendi o que era um messias.”
Essa profunda conexão pessoal transborda na tela. O filme, apresentado em Veneza, não poupa recursos: com um orçamento robusto e um elenco estelar que inclui Jacob Elordi na pele da Criatura e Oscar Isaac como seu criador, Victor Frankenstein, a ambição é palpável. Del Toro mergulha em temas universais como a natureza humana, paternidade, perdão, a percepção do “outro”, vida, morte e seus significados derradeiros.
A Marca do Mestre: Ternura e Humanidade no Coração do Monstro
O que torna o “Frankenstein” de Guillermo del Toro verdadeiramente único é sua assinatura pessoal inconfundível. Embora o enredo siga a essência do desafio narrativo de 1816 de Mary Shelley, Percy e Lord Byron, Del Toro infunde a história com sua maestria visual – cores vibrantes, maquiagem impecável, figurinos detalhados e efeitos especiais que são garantia em suas obras. A atmosfera é envolvente, construída com uma combinação harmoniosa de câmera, trilha sonora e direção de arte.
Mas é a sua “carícia ao monstro” que eleva a narrativa. Del Toro oferece uma perspectiva terna e empática, quase um afago, à criatura e a todos que se sentem marginalizados. “Vivemos em um tempo de terror e intimidação. A resposta para mim são o amor e o perdão”, declarou o diretor. “A pergunta central do romance é o que nos torna humanos. Não temos tarefa mais urgente do que continuar sendo, em um momento em que tudo nos empurra para a polarização. O filme busca mostrar nosso direito à imperfeição, a nos entender como seres humanos nas circunstâncias mais opressivas. Não me assusta a inteligência artificial, mas sim a estupidez natural.”
Essa visão humanista permeia a jornada da Criatura, mostrando sua pureza e sua descoberta do mundo, desde a forma como a água arrasta as folhas até o aprendizado da fala com um idoso cego. É um conto de medo que se encheu de amor.
Recepção em Veneza e o Futuro na Netflix
Apesar de sua duração de duas horas e meia e de uma certa generosidade nas explicações – talvez um reflexo do entusiasmo do diretor –, o filme foi acolhido com adoração pela crítica em Veneza. A sala de imprensa ovacionou Guillermo del Toro, que, emocionado, refletiu sobre sua trajetória: “Tudo o que fiz desde ‘Cronos’ (seu primeiro filme em 1992) foi uma ferramenta, uma ideia que me traria até este ponto.”
O projeto grandioso, com um custo estimado em 120 milhões de dólares, foi viabilizado pela Netflix, que ofereceu a Del Toro a liberdade e os recursos necessários. Embora a exibição nos cinemas seja limitada, a maior parte do público poderá imergir nesta experiência fílmica colossal em novembro, diretamente pela plataforma de streaming.
O Legado de um Visionário: De Pinoquio a Frankenstein
Guillermo del Toro tem um histórico de transformar sonhos em realidade. Desde obras aclamadas como “O Labirinto do Fauno” e “A Forma da Água” (vencedor do Leão de Ouro em Veneza em 2017 e de vários Oscars), ele construiu uma reputação de cineasta autoral com visão comercial. Sua lendária “Bleak House”, sua biblioteca pessoal e refúgio criativo, é um testemunho de seu universo particular, repleto de monstros e humanidade.
Após reimaginar Pinóquio como um tocante alegato contra a guerra e o fascismo há três anos, o diretor mexicano agora entrega sua versão de “Frankenstein”. Aquele menino que devorava livros e sonhava grande continua a cumprir suas promessas, presenteando o mundo com histórias que desafiam, emocionam e nos lembram do que significa ser humano.
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