China FC: A Ascensão e Queda do Guangzhou, o ‘Chelsea da Ásia’

China FC: A Ascensão e Queda do Guangzhou, o ‘Chelsea da Ásia’
Por Isabela Reis — Rio de Janeiro
24/03/2026 02h00 Atualizado 25/03/2026
Para entender a evolução do futebol asiático, é preciso estudar o Guangzhou FC. Um clube chinês que, em poucos anos, se transformou na maior potência do país e do continente, atraindo a atenção do mundo com contratações de peso. Essa ascensão meteórica foi impulsionada pela aquisição do clube pela Evergrande, uma gigante do ramo imobiliário.
No entanto, a queda do Guangzhou foi tão rápida quanto sua ascensão. Com a falência da patrocinadora, o clube se desfez gradualmente e encerrou suas atividades no início do ano passado. Mas como uma potência que contou com Felipão, Paulinho, Elkeson e Conca em seu elenco simplesmente desapareceu?

O Início da Jornada
Fundado em 1954 na cidade chinesa de Guangzhou, o clube surgiu como uma representação do governo local, uma estratégia comum no futebol chinês. Com o apelido de “Tigres do Sul da China”, em referência ao seu mascote, o Guangzhou se profissionalizou apenas 39 anos depois de sua fundação.
Durante seus primeiros anos, o clube alternou entre a segunda e a primeira divisão, sendo um coadjuvante na vibrante cena financeira e comercial de Guangzhou. A situação se agravou em fevereiro de 2010, quando o clube foi rebaixado à segunda divisão como punição por um esquema de manipulação de resultados.
Uma investigação do Ministério de Segurança Pública da China revelou subornos feitos por funcionários do clube para influenciar resultados em 2006. A operação resultou na prisão de dirigentes, ex-vice-presidentes da Associação Chinesa de Futebol e até mesmo um árbitro da FIFA. Em meio a essa crise, surgiu a Evergrande, a empresa que mudaria o destino do clube.
A Virada de Chave com a Evergrande
No início de 2010, o Guangzhou foi adquirido por 100 milhões de yuans (aproximadamente R$ 25 milhões na época) e renomeado Guangzhou Evergrande. A nova proprietária era uma gigante do setor imobiliário, com raízes na cidade do clube.
Xu Jiayin, fundador da Evergrande, foi o principal responsável pelos investimentos no clube. Em dez anos, a empresa acumulou 150 bilhões de dólares em ativos, aproveitando o êxodo rural e a alta densidade populacional da China. Em 2017, Jiayin chegou a liderar a lista dos homens mais ricos da China, enquanto a Evergrande se tornava uma das maiores empresas do ramo imobiliário, representando um terço da produção econômica chinesa, segundo o jornal inglês “Financial Times”.
Felipão explica como o projeto do Guangzhou visava a expansão do futebol chinês: “Tinha um aporte financeiro muito bom. Eles cumpriam e desenvolviam o time. Quando mostramos algumas carências, eles nos deram um retorno rápido. Eles estavam preocupados em desenvolver o futebol chinês, para competir em igualdade com times tradicionais.”
Anos Dourados e Contratações de Estrelas
O poder financeiro do Guangzhou se tornou sua principal arma. O clube contratou jogadores de destaque, como Muriqui, Sun Xiang e Zheng Zhi, ainda na segunda divisão. Após a promoção à Superliga Chinesa, as contratações se tornaram ainda mais ambiciosas, com a chegada de Conca, Lucas Barrios, Paulinho, Elkeson, Alan, Aloísio “Boi Bandido”, Talisca e Ricardo Goulart.
O Guangzhou atraía jogadores brasileiros em momentos importantes de suas carreiras. Barrios, por exemplo, havia conquistado o Campeonato Alemão e a Copa da Alemanha com o Borussia Dortmund antes de aceitar a proposta chinesa. Paulinho, por sua vez, estava no Tottenham e chegou a ser emprestado ao Barcelona durante seu contrato com o Guangzhou.
O clube também investiu em treinadores renomados, como Luiz Felipe Scolari, Marcello Lippi e Fabio Cannavaro. O resultado foi uma coleção de títulos: oito Campeonatos Chineses (2011, 2012, 2013, 2014, 2015, 2016, 2017 e 2019), duas Champions League da Ásia (2013 e 2015), duas Copas da China (2012 e 2016) e quatro Supercopas (2012, 2016, 2017 e 2018). Felipão se tornou o técnico mais vitorioso da história do clube, com sete títulos.
A Anatomia da Falência
A Evergrande teve um crescimento exponencial entre 2004 e 2020, mas sua receita para o sucesso foi baseada em uma série de empréstimos com juros insustentáveis. A empresa acumulou dívidas que ultrapassaram 300 bilhões de dólares e começou a enfrentar dificuldades para pagar credores e fornecedores.
A situação se agravou a partir do final de 2021, com a Evergrande caindo na mira do presidente Xi Jinping. Em janeiro de 2021, o clube retomou o nome Guangzhou FC para cumprir uma regra da Associação Chinesa de Futebol, que buscava evitar referências aos investidores.
Sem os aportes da Evergrande, o Guangzhou enfrentou problemas financeiros e precisou fazer demissões em massa. Ricardo Goulart e Paulinho rescindiram seus contratos. O clube teve uma temporada negativa e caiu para a segunda divisão no fim de 2022.
A falência oficial da Evergrande foi decretada pela justiça de Hong Kong em janeiro de 2024, após a empresa não apresentar um plano de reestruturação concreto. O Guangzhou, já em dificuldades, decaiu ainda mais e não conseguiu cumprir os requisitos financeiros para se inscrever na Segunda Divisão, tendo sua licença negada. Em janeiro do ano passado, o clube anunciou o encerramento de suas atividades profissionais.
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