×

Liechtenstein: Uma História Judaica Esquecida e o Despertar da Memória

Liechtenstein: Uma História Judaica Esquecida e o Despertar da Memória

temp_image_1772107657.162877 Liechtenstein: Uma História Judaica Esquecida e o Despertar da Memória



Liechtenstein: Uma História Judaica Esquecida e o Despertar da Memória

Liechtenstein: Uma História Judaica Esquecida e o Despertar da Memória

No século XXI, Liechtenstein não possui uma comunidade judaica estabelecida, uma sinagoga ou um local fixo de encontro para judeus. Para os poucos habitantes judeus do país, a sensação de comunidade é inexistente. Um artigo no jornal Liechtensteiner Zeitung, o “Vaterland”, resumiu a situação de forma direta: “Falta um local de encontro judaico”.

Essa ausência se reflete também no sistema educacional, onde o tema da história judaica do país recebe pouca atenção, deixando muitos jovens com pouco conhecimento sobre o passado. Essa realidade contrasta com a prosperidade e as ambições internacionais de Liechtenstein. Enquanto fundações e bancos operam globalmente, o país em si carece de um espaço dedicado à memória e à preservação da vida judaica.

Raízes Históricas e a Presença Inicial

Apesar da ausência contemporânea, a história judaica em Liechtenstein remonta a tempos antigos. O Lexicon Histórico do Principado de Liechtenstein sugere a presença de judeus viajantes na região desde a época romana e do início da Idade Média, como peregrinos a caminho da Terra Santa que passavam por Vaduz. No século XIV, existiam contatos econômicos ativos entre judeus e a região de Liechtenstein.

Após a expulsão dos judeus dos centros urbanos nos séculos XV e XVI, alguns buscaram novas formas de subsistência no campo, atuando como comerciantes de gado ou vendedores ambulantes. Um imposto discriminatório, conhecido como “Würfelzoll”, incluído na alfândega de Vaduz em 1552, atesta essa presença. Em 1637, refugiados da Áustria fundaram uma comunidade judaica em Eschnerberg, composta por 20 famílias e cerca de 100 pessoas, que viviam dispersas em pequenas aldeias, sem um gueto.

A Comunidade de Eschnerberg e os Desafios

A comunidade de Eschnerberg, embora modesta, possuía uma sinagoga (que foi destruída em meados do século XIX), um rabino (Abraham Neuburg) e um tribunal rabínico. Seus membros se dedicavam ao comércio de cavalos, gado, peles, tecidos e artigos de prata. O comércio de dinheiro ganhou importância nos séculos XVII e XVIII. As relações com a população cristã nem sempre foram fáceis, e as autoridades frequentemente intervieram para proteger os judeus.

Entre 1748 e 1920, não há registros de judeus vivendo em Liechtenstein. Em 1866 e 1884, os irmãos Rosenthal adquiriram duas fábricas têxteis em Vaduz, que, no entanto, encerraram suas atividades após a Primeira Guerra Mundial. A partir da década de 1920, judeus começaram a chegar ao país, inicialmente de forma esporádica e, posteriormente, em maior número, atraídos pela crise econômica mundial, pela possibilidade de naturalização (mediante o pagamento de altas taxas) e pela fuga dos nazistas.

A Era da Perseguição e o Refúgio em Liechtenstein

Entre 1933 e 1945, 144 judeus obtiveram a cidadania de Liechtenstein, e cerca de 230 encontraram asilo, conforme o Lexicon Histórico. A partir de 1935, era necessário depositar uma caução de 10.000 a 50.000 francos suíços na Landesbank para obter uma permissão de residência. Após a anexação da Áustria, muitos judeus foram recusados. De 1938 até o fim da guerra, em 1945, cerca de 120 judeus estrangeiros viviam continuamente em Liechtenstein.

O Despertar da Memória e a Relevância Atual

Em agosto de 2022, as primeiras “Stolpersteine” (pedras de tropeço) foram instaladas em Vaduz, em homenagem a Alfred e Gertrud Rotter, um casal que construiu um império teatral na República de Weimar e que buscou refúgio em Liechtenstein para escapar dos nazistas, mas foi morto por antissemitas. Essas pedras são os primeiros sinais visíveis da memória judaica no espaço público.

Recentemente, uma exposição no Museu Nacional de Liechtenstein abordou a história do país durante a Segunda Guerra Mundial, intitulada “Nah am Krieg” (Perto da Guerra). A exposição revelou um país que, embora neutro, estava cercado pela guerra e que conseguiu manter sua neutralidade, mas não sem ambiguidades. A exposição destacou a tensão entre a adaptação e a demarcação, a dependência econômica e a cautela política em relação ao Terceiro Reich.

A exposição também demonstrou que a neutralidade não era um escudo contra a responsabilidade moral. Liechtenstein permaneceu intacto, mas não intocado. O país era um pequeno estado católico, politicamente conservador e economicamente ligado à Alemanha. Os nacional-socialistas encontraram apoio aqui, e o movimento “Volksdeutsche” (alemães étnicos) agitou abertamente pela anexação ao Reich. Seu jornal, “Der Umbruch”, publicava regularmente ataques contra os residentes judeus do país.

A história de Anita Winter, neta de Moses e Elsi Strauss, ilustra a experiência dos refugiados judeus em Liechtenstein. Seus avós encontraram refúgio no país, enquanto a Suíça lhes negou a entrada. Winter relata que a família principesca e o governo se comportaram de forma humana com os refugiados judeus e defenderam-nos de ataques. No entanto, seu avô estava ciente do perigo, como evidenciado pelos artigos difamatórios publicados no “Umbruch”.

A fundação Gamaraal, criada por Winter em 2014, apoia sobreviventes do Holocausto em situação de pobreza, demonstrando que a memória pode ser mais do que uma simples análise histórica: é um compromisso moral de evitar que o sofrimento dos sobreviventes termine em pobreza e esquecimento.

Em um momento em que famílias judias na França, Bélgica, Alemanha e Suíça estão considerando a emigração, a memória tardia de Liechtenstein serve como um espelho, revelando a fragilidade da segurança sobre a qual as sociedades pós-guerra europeias foram construídas e a facilidade com que antigas certezas podem se desfazer.

Talvez seja importante lembrar aos liechtensteinianos que, segundo a lenda, a mãe de seu santo padroeiro, Florinus de Remüs, era judia.

Ukraine

Großbritannien

Frankreich


Compartilhar: