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Bangladesh: Eleições Cruciais em Meio a Turbulência Política e Ascensão da Geração Z

Bangladesh: Eleições Cruciais em Meio a Turbulência Política e Ascensão da Geração Z

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Bangladesh: Eleições Cruciais em Meio a Turbulência Política e Ascensão da Geração Z

Bangladesh: Um Teste para a Democracia em Tempos de Turbulência

Bangladesh se prepara para o que muitos consideram a eleição mais importante em décadas. Em 12 de fevereiro, 127 milhões de cidadãos foram chamados às urnas na primeira eleição nacional desde o levante estudantil de julho de 2024, que abalou o governo. Este pleito representa um teste crucial para a recuperação de um país marcado por anos de turbulência política, instabilidade, repressão e prisões em massa.

Onde Estão os Filhos da Revolução?

Mas o que aconteceu com a geração que liderou os protestos de 2024? Por que eles não estão se preparando para assumir o poder? Há pouco mais de dois anos, Sheikh Hasina, a primeira-ministra mais longeva de Bangladesh, conquistou um quarto mandato consecutivo. Essa eleição foi amplamente criticada como fraudulenta e boicotada pelo Partido Nacionalista de Bangladesh (PNB), principal força de oposição à Liga Awami, de orientação liberal-centrista.

Os protestos, inicialmente liderados por estudantes, começaram com a exigência de extinguir o sistema de cotas para cargos no serviço público, que reservava um terço das vagas para parentes de veteranos da Guerra de Independência de 1971. Embora o governo de Sheikh Hasina tenha abolido o sistema em 2018, ele foi restabelecido em 2024, reacendendo a insatisfação popular.

Repressão e Resistência

A resposta do governo à crescente onda de protestos foi dura. A Liga Awami, conhecida como Liga Popular de Bangladesh, desligou a internet, prendeu dissidentes com base na Lei de Segurança Digital e, em casos extremos, utilizou munição real contra ativistas estudantis. Sheikh Hasina, desafiadora, chamou os manifestantes de “terroristas” e ordenou a prisão de centenas de pessoas, além de apresentar acusações criminais contra outras centenas. Um áudio vazado sugeriu que ela teria ordenado o uso de força letal contra os manifestantes, o que ela nega.

Em 5 de agosto de 2024, cenas de violência chocaram o país, com a polícia matando pelo menos 52 pessoas em um bairro movimentado de Daca, tornando-o um dos piores casos de violência policial na história de Bangladesh. No total, cerca de 1.400 pessoas perderam a vida durante os protestos, a maioria por ação das forças de segurança, segundo a ONU.

O Exílio e a Nova Era

Sheikh Hasina vive agora no exílio na Índia, que se recusou a extraditá-la para que enfrente uma sentença de pena de morte pela repressão, dada à revelia pelo tribunal de crimes de guerra de Bangladesh. Muitos outros líderes da Liga Awami também encontraram refúgio na Índia.

Após a queda de Hasina, Muhammad Yunus, laureado com o Nobel da Paz, assumiu o comando de um governo interino que proibiu a Liga Awami e seus parceiros de coalizão de exercer qualquer atividade política. A Comissão Eleitoral cancelou o registro do partido, abrindo caminho para o PNB, liderado por Tarique Rahman, como a principal força política na disputa eleitoral atual.

Divisões e Alianças Inesperadas

Apesar da esperança de uma nova era, o Partido Nacional dos Cidadãos (PNC), formado por líderes estudantis que conduziram a revolução, enfrenta profundas divisões internas. Nas eleições estudantis nas principais universidades, candidatos apoiados pelo braço estudantil do Jamaat-e-Islami, partido islamista anteriormente impedido de atuar na política principal, venceram por ampla margem, sinalizando uma mudança no humor nacional.

Diante desse cenário, o PNC formou uma aliança multipartidária com o Jamaat-e-Islami em dezembro, uma decisão que gerou controvérsia. O líder do Jamaat-e-Islami, Shafiqur Rahman, prometeu combater a corrupção e restaurar a independência do Judiciário, propostas que ressoam com muitos eleitores.

Desafios e Perspectivas Futuras

Apesar das promessas, o Jamaat-e-Islami limita o número de candidatos do PNC, com apenas 30, e apenas dois deles são mulheres. A disputa central na eleição deste ano se concentra entre o Jamaat e o PNB, que intensifica a pressão sobre o partido estudantil após anos de perseguição sob o governo da Liga Awami.

A corrupção, o aumento dos preços, o desemprego e a segurança pública são preocupações centrais dos eleitores. A questão fundamental é se o novo governo conseguirá implementar reformas políticas e garantir um processo democrático em um país com histórico de violência política, prisões em massa e desaparecimentos forçados. O Banco Mundial alertou em 2025 que a pobreza em Bangladesh aumentou e que há menos empregos, especialmente para as mulheres.

Com mais de 40% do eleitorado na faixa etária de 18 a 37 anos, emprego e segurança física são prioridades. A eleição gira em torno da capacidade da próxima liderança de trazer estabilidade, equidade e a percepção de que o Estado funciona em favor da população.

O Cenário Regional e Global

A política no Sul da Ásia é profundamente entrelaçada com religião e identidade, e o resultado da eleição em Bangladesh pode alterar o cenário político regional, com impactos sobre migração e segurança de fronteiras. As relações bilaterais com Índia e Paquistão podem mudar, dependendo de quem formar o governo. Bangladesh também está no centro de uma disputa estratégica entre os Estados Unidos e a China.

A estabilidade de Bangladesh, como segunda maior economia do Sul da Ásia, pode influenciar significativamente o cenário diplomático regional.

Fonte: BBC News Brasil


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