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Nuremberg: O Julgamento que Questiona a Justiça e a Natureza Humana

Nuremberg: O Julgamento que Questiona a Justiça e a Natureza Humana

temp_image_1774415371.733718 Nuremberg: O Julgamento que Questiona a Justiça e a Natureza Humana



Nuremberg: O Julgamento que Questiona a Justiça e a Natureza Humana

Nuremberg: Um Olhar Perturbador Sobre Justiça e Humanidade

Quem pensa em Nuremberg, a cidade que sediou o histórico julgamento do Estado Maior nazista em 1946, evoca a busca por justiça e a união da humanidade contra um inimigo comum. O novo filme de James Vanderbilt resgata esse confronto, revisitando a luta entre o totalitarismo e os valores humanistas – um legado que ecoa desde o filme seminal “O Julgamento de Nuremberg” (1961), de Stanley Kramer, e inúmeros documentários sobre o tema.

Em 1946, o mundo testemunhou um momento singular, onde nações aliadas, incluindo EUA e URSS, compartilhavam a visão de justiça e buscavam estabelecer um sistema internacional baseado em leis universais. Um instante fugaz em que o certo e o errado pareciam distintos, e tribunais foram criados para garantir essa distinção. No entanto, essa unidade logo se fragmentou, e é essa desintegração que o filme de Vanderbilt explora.

O Confronto Entre Goering e Kelley: Uma Jornada à Mente do Mal

A narrativa central do filme se concentra no embate entre Hermann Goering, o número dois do regime nazista, e Douglas Kelly (Rami Malek), o jovem psiquiatra do Exército encarregado de desvendar a mente por trás da perversidade nazista. Essa interação leva o filme por caminhos inesperados, pois o conhecimento do outro exige diálogo. Kelley, confrontado com um personagem monstruoso, é compelido a questionar o que leva um indivíduo a se tornar um monstro.

A pergunta ressoa com força: o que nos diferencia de um monstro, especialmente em tempos de guerra? O diálogo introduz a ambiguidade em um sistema que, até então, representava um raro momento de consenso global: a condenação do nazismo. Vanderbilt abraça essa ambiguidade, assim como o psiquiatra, abrindo espaço para questões incômodas.

Reflexões Sobre Guerra, Justiça e a Relatividade do Bem e do Mal

Palavras de Goering ecoam, desafiando certezas e levantando preocupações atuais: “qualquer guerra pode levar a um conflito mundial”. A comparação entre o Holocausto e o bombardeio de Hiroshima surge, questionando se a extinção de 150 mil civis em um único dia não seria também um crime. Essas reflexões levam a questionar a própria figura de Kelley, o herói da psiquiatria e da vitória aliada, e a relativizar a imagem do vilão nazista.

Goering é retratado como um homem preso nas consequências da Primeira Guerra Mundial, na humilhação e aniquilação da Alemanha. Kelley, por sua vez, está preso na engrenagem da vitória de 1945. Vanderbilt sugere que a guerra e a violência que dela decorrem são o verdadeiro problema. O filme se torna, assim, um manifesto antibelicista em um momento em que os EUA estão envolvidos em conflitos no Irã, na Palestina e em intervenções na América Latina.

A provocação final do filme é ainda mais inquietante: seria possível que uma parcela da população americana (e não apenas dela) pudesse agir de forma semelhante aos nazistas? A linha entre o bem e o mal, o certo e o errado, o humano e o monstruoso, parece tênue diante da brutalidade da guerra e do confronto com um homem previamente condenado.

Goering sentencia: “vocês só estão me julgando porque ganharam a guerra”. A lei, portanto, é ditada pelos vencedores. Vanderbilt argumenta que o direito internacional forjado em Nuremberg possui uma aparência de justiça, mas essa justiça é frágil e pode se desmoronar facilmente. O poder de julgar reside em quem detém a força.

A ousadia do filme em questionar crenças históricas e práticas governamentais atuais pode explicar sua ausência nas premiações da Academia de Hollywood. No entanto, a arte tem a função de desafiar o status quo e provocar reflexões. “Nuremberg” cumpre esse papel ao postular que a monstruosidade da guerra é a mais vasta, e o nazismo é apenas uma de suas manifestações.

Em consonância com as ideias de Hannah Arendt, a pensadora do totalitarismo, a história humana é marcada por infâmias. Arendt arriscou sua vida e sua integridade intelectual para defender suas convicções. Vanderbilt também se arriscou ao lembrar que o totalitarismo não é exclusivo de um lado, mas pode se manifestar de formas insidiosas em qualquer lugar. Decifrar essas formas é o desafio de quem busca viver em liberdade.

Por propor esse desafio, “Nuremberg” é um filme relevante e atual. A atuação formidável de Russell Crowe como Goering é um destaque adicional.

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