Tatiana Sampaio: A Cientista Brasileira que Desperta a Esperança na Reversão da Paraplegia

Tatiana Sampaio: A Cientista Brasileira que Desperta a Esperança na Reversão da Paraplegia
Tatiana Sampaio, coordenadora do Laboratório de Biologia da Matriz Extracelular da UFRJ, tornou-se um nome conhecido em todo o Brasil no início do ano, quando os resultados preliminares de seus testes com a polilaminina – uma rede de proteínas inovadora – em seres humanos foram divulgados. A substância despertou fortes esperanças de reverter lesões na medula espinhal e permitir que pessoas paralisadas recuperem movimentos, transformando a vida de muitos.
Uma Descoberta Inesperada
A descoberta, segundo a própria Tatiana, ocorreu de forma quase acidental, durante experimentos com a laminina – uma proteína natural que atua como um “trilho” para guiar os neurônios durante a formação embrionária. “A laminina é como um colar de pérolas: quando arrebenta, ficam só as pérolas soltas”, explica a cientista, um dos destaques da lista Forbes Mulheres Mais Poderosas de 2026. “De repente, vi que as ‘bolinhas’ formavam o colar novamente. Aí comecei a pensar em como aquilo poderia virar um medicamento.”
Uma Trajetória Inspiradora
Formada em ciências biológicas pela UFRJ, com mestrado e doutorado na área, Tatiana Sampaio herdou da família a paixão por soluções inovadoras. Cresceu em um ambiente estimulante, com uma avó cientista, uma tia-avó bióloga e um pai filósofo. “As pessoas perguntam de onde veio essa ideia de ser mulher cientista, e para mim isso foi natural”, afirma.
A Longa Jornada da Pesquisa
A pesquisa da polilaminina começou em 1998, mas enfrentou dificuldades para obter financiamento de grandes indústrias. A solução foi realizar os testes de forma acadêmica na UFRJ. “Fazer um estudo clínico com uma droga nova, que precisa ser injetada na medula espinhal, em pacientes críticos, sem patrocinador, é algo muito difícil. E a gente fez assim mesmo”, relata Tatiana.
Em 2021, o laboratório Cristália firmou uma parceria com o projeto, investindo R$ 100 milhões na pesquisa. O desenvolvimento da molécula passou por diversas etapas: células isoladas, testes em ratos e, posteriormente, em cães. Nos testes com cães, foram observados sinais de melhora em animais que haviam interrompido a evolução com a fisioterapia, cerca de dois meses após a aplicação.
Resultados Promissores em Humanos
Um teste preliminar com humanos, divulgado em setembro passado, foi extremamente animador. Seis dos oito pacientes paraplégicos e tetraplégicos recuperaram parte dos movimentos, e um deles voltou a andar. “Ninguém esperava”, diz Tatiana. “Cinco meses depois da aplicação, ele devolveu a cadeira de rodas.”
Próximos Passos e Esperanças Futuras
Em janeiro, a Anvisa autorizou o início de um estudo clínico oficial para avaliar a segurança do uso da polilaminina em humanos. Se as três fases de testes forem bem-sucedidas, o medicamento poderá estar disponível em até cinco anos.
A Vida de uma Cientista em Ascensão
Apesar da fama recente, Tatiana Sampaio continua lecionando na UFRJ desde seus 28 anos. “Agora existe uma certa empolgação para ser meu aluno. Em agosto, a minha sala já estava lotada.” A pesquisadora equilibra sua rotina acadêmica com uma vida tranquila no bairro de Laranjeiras, no Rio de Janeiro. “Meu programa ideal é ouvir música, de preferência ao ar livre, tomar uma cerveja e ir à praia.”
A cientista reconhece a responsabilidade que a visibilidade de seu trabalho traz consigo. “É uma responsabilidade muito grande. Vou tentar não decepcionar”, afirma, consciente do impacto de suas descobertas na vida de milhares de pessoas.
Entrevista Exclusiva com Tatiana Sampaio
Forbes: O que mudou na sua vida com a visibilidade dos resultados da polilaminina?
Tatiana Sampaio: No ano passado, já vinha tendo reconhecimento, inclusive dentro da própria universidade. Mas a mudança foi muito grande no Carnaval, quando as pessoas começaram a me reconhecer e a querer saber quem eu era. As pessoas chegam emocionadas, como se eu tivesse um dom de cura. Mas eu sou a mesma pessoa de sempre.
Forbes: O que te levou a escolher esse caminho na ciência?
Tatiana Sampaio: Não teve nada muito específico. Gostava de biologia na escola e tive uma tia-avó que era bióloga e cientista. Minha avó também era cientista. Para mim, ser mulher cientista sempre foi natural.
Forbes: Qual foi o momento mais desafiador da sua carreira?
Tatiana Sampaio: A etapa mais difícil foi fazer um estudo clínico sem o apoio de uma indústria farmacêutica. Foi com pouco dinheiro e muito amor, meu e de muitas outras pessoas.
Forbes: Como você definiria a polilaminina?
Tatiana Sampaio: É um medicamento com base em uma proteína natural do corpo, a laminina, que forma uma espécie de malha que permite o crescimento dos neurônios.
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