Marcelo Gleiser: A Inteligência Artificial e o Risco de Atrofia do Pensamento Crítico

Marcelo Gleiser: A Inteligência Artificial e o Risco de Atrofia do Pensamento Crítico
A busca incessante por ferramentas que ampliem nossas capacidades intelectuais sempre foi uma marca da humanidade. No entanto, a ascensão da inteligência artificial (IA) apresenta um paradoxo intrigante: ao invés de expandir nosso intelecto, ela pode estar, silenciosamente, corroendo nossa capacidade de pensar criticamente. A reflexão, impulsionada por pensadores como Marcelo Gleiser, nos convida a uma análise profunda sobre o impacto da IA em nossa cognição.
A Terceirização do Pensamento
Um relatório recente, o The Anthropic Economic Index Report de setembro de 2025, revelou um aumento alarmante no número de usuários que delegam tarefas inteiras à IA, com intervenção humana mínima. O índice saltou de 27% para 39% em apenas um ano. Essa tendência sugere que, em vez de utilizarmos a IA como uma ferramenta para aprimorar nosso raciocínio, estamos, gradualmente, entregando a ela a própria função de pensar.
Diego Nogare, mestre e doutorando em inteligência artificial, traça um paralelo revelador com o uso indiscriminado de calculadoras. “Se você usa apenas para obter o resultado final sem entender a fórmula, você automatiza, mas não aprende. Terceirizamos a reflexão e o pensamento crítico; estamos nos tornando meros apertadores de botão”, alerta Nogare.
O Fenômeno do “AI Slop” e a Degradação da Informação
A abdicação da autoria intelectual não se limita a um empobrecimento do raciocínio individual. Ela também contribui para a degradação da qualidade da informação global. O fenômeno conhecido como “AI Slop” – uma enxurrada de conteúdo sintético sem curadoria humana – cria um ciclo vicioso onde modelos de IA são treinados por outros modelos, resultando em informações superficiais e desprovidas de profundidade analítica. A proliferação de informações geradas por IA, sem a validação do pensamento crítico humano, pode levar a um cenário de desinformação generalizada.
O Impacto no Desenvolvimento Cognitivo dos Jovens
O risco de “derretimento” da capacidade crítica é particularmente preocupante entre os jovens. Ana Luisa Meirelles, educadora parental e cofundadora da Universidade de Pais, explica que a neurociência é clara: o cérebro se fortalece através do esforço cognitivo. O córtex pré-frontal, responsável pelo raciocínio complexo e tomada de decisão, depende de desafios para se desenvolver plenamente.
“Se a IA faz tudo, essa sinapse simplesmente não acontece. É mais ou menos como querer fortalecer um músculo sem nunca usá-lo”, afirma Ana Luisa. Ela defende que a tecnologia deve ser vista como uma parceira de brainstorming, e não como a executora final. A habilidade de questionar o resultado da máquina, o famoso “por que isso faz sentido?”, é fundamental para o desenvolvimento do senso crítico.
Letramento Digital: A Chave para o Futuro
A solução para esse impasse não reside na proibição da IA, mas no letramento digital. Ensinar os usuários a serem “diretores” da tecnologia, dominando a arte de formular bons prompts e revisando criticamente cada entrega, é essencial para garantir que a cabeça humana continue no comando. A capacidade de avaliar a informação, identificar vieses e formular opiniões independentes são habilidades cruciais na era da IA.
Como ressalta Ana Luisa, “O futuro não é escolher entre IA ou desenvolvimento humano, mas usar a tecnologia sem perder a essência do que nos torna humanos: a criatividade e o pensamento crítico”. A reflexão de Marcelo Gleiser sobre a importância da curiosidade e do questionamento se torna ainda mais relevante nesse contexto, nos lembrando que a busca pelo conhecimento é um processo contínuo que exige esforço, dedicação e, acima de tudo, a capacidade de pensar por nós mesmos.
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