MRV&CO: O custo do ‘sonho americano’ e a estratégia de recuperação da gigante imobiliária

O Recuo Estratégico da MRV&CO no Mercado Norte-Americano
O que começou como uma “chance de ouro” para a MRV&CO transformou-se em um dos capítulos mais desafiadores da história financeira do grupo. A tentativa de internacionalização, consolidada através da subsidiária Resia, revelou que o mercado imobiliário dos Estados Unidos pode ser tão lucrativo quanto arriscado.
Após anos de investimentos pesados, o balanço recente da companhia trouxe a confirmação de um cenário adverso: a operação nos EUA não apenas deixou de gerar o lucro esperado, como empurrou a empresa para o vermelho, com prejuízos contabilizados em dólar.
A Ascensão e a Queda da Resia
Fundada originalmente em 2012 na Flórida, a Resia (anteriormente American Housing Solutions) foi integrada à MRV em 2019. O plano era ambicioso: expandir a produção de 700 para 24 mil apartamentos anuais, abrangendo estados como Texas, Georgia e Flórida.
No entanto, uma combinação de fatores externos e erros estratégicos comprometeu a operação:
- Inflação e Juros Altos: A subida nas taxas de juros nos EUA afastou investidores e encareceu o financiamento de novos projetos.
- Erro de Localização: Alguns empreendimentos foram erguidos em áreas com excesso de oferta, dificultando a locação e reduzindo a valorização final.
- Endividamento Insustentável: Sem a entrada de novos sócios, a Resia recorreu a dívidas que atingiram a marca de US$ 745 milhões ao final de 2024.
O Impacto Financeiro e a Decisão Drástica
O custo da empreitada foi alto. Somando as baixas contábeis (impairments), o prejuízo estimado gira entre R$ 1,3 bilhão e R$ 1,4 bilhão. Esse desempenho impactou diretamente o valor de mercado da empresa na B3, que caiu de R$ 9 bilhões em 2019 para aproximadamente R$ 2,7 bilhões atualmente.
Diante desse cenário, a gestão da família Menin optou pelo pragmatismo. A decisão foi clara: encerrar as atividades da Resia. A prioridade agora é a geração de caixa e a desalavancagem financeira.
O Caminho para a Recuperação: Foco no Brasil
Apesar do revés internacional, a MRV mantém sua força no mercado interno. A divisão focada em moradias populares, especialmente através do programa Minha Casa Minha Vida (MCMV), continua apresentando números sólidos.
No segundo trimestre, a operação brasileira registrou um lucro líquido ajustado de R$ 155 milhões, representando um crescimento de 28,2% em comparação ao ano anterior. Com a produção de cerca de 40 mil apartamentos anuais em 90 cidades, a empresa prova que seu núcleo principal permanece resiliente.
O que esperar para os próximos anos?
A liquidação dos ativos restantes da Resia — que incluem terrenos e uma fábrica de pré-moldados — deve se estender até 2028. O objetivo é transformar esses ativos em liquidez para reduzir a dívida líquida do grupo, que deve cair de R$ 5,9 bilhões para R$ 4,6 bilhões.
A lição deixada pela MRV&CO é um lembrete sobre os riscos da expansão global acelerada em mercados voláteis. Agora, com a casa organizada, a gigante imobiliária volta seus olhos para onde sempre foi forte: a democratização da casa própria no Brasil.
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