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A Vida Invisível do Entregador: O Algoritmo que Pune a Prudência

A Vida Invisível do Entregador: O Algoritmo que Pune a Prudência

temp_image_1777900996.031835 A Vida Invisível do Entregador: O Algoritmo que Pune a Prudência

Entre a Agilidade e o Risco: A Realidade do Entregador por Aplicativo

Para quem pede comida pelo celular, a experiência é simples: um clique, um mapa acompanhando o trajeto e, em poucos minutos, o pedido chega à porta. Mas, por trás da conveniência digital, existe uma engrenagem complexa e, muitas vezes, brutal. O papel do entregador moderno vai muito além de transportar pacotes; ele é, na verdade, um combatente urbano enfrentando um adversário invisível: o algoritmo.

Recentemente, Douglas Alexandre Santos, sociólogo e pesquisador da Universidade de São Paulo (USP), decidiu mergulhar nessa realidade. Durante seis meses, entre 2023 e 2024, ele trabalhou como cicloentregador no iFood para sua pesquisa de mestrado. O resultado foi alarmante: um sistema onde a prudência é punida e o risco é a única moeda de troca para a produtividade.

O Algoritmo vs. A Segurança

A tese de Santos, premiada como a melhor dissertação de 2025 do Programa de Pós-Graduação em Sociologia da USP, revela que os prazos estipulados pelas plataformas ignoram variáveis básicas do mundo real, como semáforos fechados, engarrafamentos ou acidentes. Para o sistema, o tempo é absoluto.

Durante sua experiência, Douglas percebeu que respeitar as leis de trânsito significava perder entregas. Em um episódio emblemático, ao tentar lidar com um problema mecânico em sua bicicleta, a inteligência artificial não apenas repassou o pedido a outro entregador, mas aplicou um bloqueio temporário de 15 minutos. A mensagem era clara: qualquer desvio da produtividade máxima é penalizado.

Perfis Diferentes, Desafios Comuns

A pesquisa destaca que a categoria dos entregadores não é homogênea. Existe uma divisão social e geracional marcante:

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  • Motoboys: Geralmente homens acima dos 30 anos, provedores de família, com maior tendência à organização sindical e luta por regulamentação.
  • Cicloentregadores: Majoritariamente jovens negros, moradores de periferias, entre 18 e 24 anos. Para muitos, o aplicativo representa a primeira “oportunidade” de renda, eliminando a figura do patrão tradicional.

Para esses jovens, o perigo no trânsito assume um contorno psicológico complexo. O ato de costurar entre ônibus e ignorar sinais vermelhos é, muitas vezes, ressignificado como uma prova de “masculinidade” e coragem, transformando o medo em adrenalina para conquistar status entre os pares.

A “Zona Cinzenta” da Regulamentação

Atualmente, o trabalho por aplicativos no Brasil vive em uma zona jurídica incerta. Segundo dados do IBGE, milhões de pessoas dependem dessa modalidade, mas a maioria não possui vínculo empregatício via CLT, ficando desamparada em casos de acidentes graves.

Santos alerta que a discussão sobre a regulamentação no Congresso Nacional foca excessivamente nos motoboys, deixando o ciclista em uma “terra de ninguém”. A ausência de obrigatoriedade de Equipamentos de Proteção Individual (EPIs) e a falta de suporte básico, como água e pontos de apoio, tornam a rotina do entregador de bicicleta ainda mais precária.

O Outro Lado: A Resposta das Plataformas

Em contrapartida, empresas como o iFood e a Associação Brasileira de Mobilidade e Tecnologia (Amobitec) afirmam que seus algoritmos são dinâmicos e consideram o tráfego em tempo real. As plataformas alegam que:

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  • Não incentivam comportamentos de risco;
  • Oferecem treinamentos de direção defensiva e seguros contra acidentes;
  • Possuem canais de suporte para reportar imprevistos sem penalidades automáticas.

No entanto, a discrepância entre o discurso corporativo e a vivência etnográfica do pesquisador da USP sugere que há um abismo entre a teoria do software e a prática no asfalto.

Conclusão: Eficiência a Qualquer Custo?

A história de Douglas Alexandre Santos nos convida a refletir sobre o custo real do nosso conforto. Enquanto a tecnologia avança para otimizar cada segundo da entrega, a integridade física do entregador parece ter se tornado um detalhe negligenciado. A urgência agora é transformar a “coragem” desses jovens em segurança real e direitos garantidos.

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