Crise em Honduras: Povo Garífuna Enfrenta Violência e Despejos em Luta por Terras Tradicionais

Violência e Repressão: O Drama do Povo Garífuna em Honduras
No dia 6 de julho, a comunidade de San Juan, localizada no município de Tela, departamento de Atlántida, em Honduras, tornou-se palco de uma operação brutal. Mais de 200 policiais fortemente armados realizaram o despejo forçado de camponeses do povo Garífuna de suas terras ancestrais, utilizando gás lacrimogêneo e, segundo denúncias, munição real.
A repressão não poupou ninguém: mulheres grávidas e crianças foram atingidas pelos efeitos dos gases e pela violência do aparato estatal. O saldo imediato foi a prisão de cinco lideranças da Organização Fraternal Negra Hondurenha (Ofraneh), incluindo Deinor Osmany Mejía Arzú, presidente do Comitê de Defesa das Terras de San Juan. Eles foram acusados de “usurpação agravada”, embora a comunidade possua reconhecimento de seus direitos territoriais pela Corte Interamericana de Direitos Humanos.
A ‘Lei dos Agroindustriais’: Priorizando o Lucro sobre as Pessoas
O estopim para essa escalada de violência foi a entrada em vigor, no final de junho, do Decreto Legislativo 107-2026. Esta legislação, apelidada pelas organizações populares como a “lei dos agroindustriais”, declara como prioridade nacional a proteção de terras destinadas a:
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- Agroindústria e Pecuária;
- Mineração de matérias-primas;
- Projetos de Energia;
- Turismo de luxo.
Na prática, a nova lei criminaliza a ocupação de áreas produtivas e acelera os processos de despejo, permitindo que remoções ocorram em apenas dois ou três dias. Isso amplia drasticamente o poder do latifúndio e dos monopólios econômicos em detrimento dos povos originários.
Um Cenário de Concentração Fundiária e Conflitos
A situação em Honduras reflete um problema estrutural profundo. Dados da Universidade Nacional Autônoma de Honduras revelam que 75% das terras do país estão concentradas nas mãos de menos de 20% dos proprietários. Essa desigualdade gera conflitos intensos, especialmente no litoral norte.
O país é o segundo maior produtor de óleo de palma da América Latina, e a expansão dessas plantações, junto com a construção de resorts turísticos, pressiona severamente os territórios Garífuna. O resultado é a atuação de seguranças privados e grupos paramilitares para expulsar as comunidades.
Resistência e Memória: Quem são os Garífuna?
O povo Garífuna (ou garinagu) possui uma história de resistência admirável, descendendo de povos indígenas caribenhos e africanos que lutaram contra a escravidão. Com cultura e idioma próprios, eles mantêm uma relação comunitária e sagrada com a terra.
A luta em San Juan não é nova; ela remonta a décadas de perseguição, intensificada após o golpe de Estado de 2009. A dor da comunidade é ampliada pelo desaparecimento de dirigentes em 2020, o que levou à criação do Comitê Sunla (que significa “Basta!” em garífuna), dedicado a buscar justiça pelos desaparecidos.
O Papel de Organizações Internacionais e a Barbárie
Especialistas apontam que a pressão sobre as terras comunitárias é estimulada por acordos com instituições como o Banco Mundial e o FMI, que incentivam projetos de infraestrutura e agroindústria em áreas disputadas. O cenário é alarmante: entre 2014 e abril de 2026, pelo menos 446 pessoas foram assassinadas em conflitos fundiários em Honduras.
Seja através de chacinas cometidas por paramilitares, como a ocorrida recentemente em Rigores, ou através de leis repressivas, o objetivo é o mesmo: assegurar a exploração monopolista da terra. No entanto, a organização popular e a resistência do povo Garífuna continuam sendo a única barreira contra o apagamento de sua cultura e território.
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