O Olhar do Trauma: A Mulher que Filmou o 11 de Setembro e Guardou o Segredo por Duas Décadas

Um Despertar Brutal em Manhattan
Na manhã de 11 de setembro de 2001, o som que acordou Thuc Doan Nguyen-Brophy não foi o de um despertador comum, mas o de uma colisão devastadora. Para ela, que vivia na esquina das ruas Canal e Essex, no sul de Manhattan, o estrondo foi tão intenso que a primeira reação foi acreditar que um caminhão havia colidido contra seu prédio.
Thuc, uma refugiada do Vietnã que encontrou em Nova York um refúgio de aceitação e pertencimento — especialmente na vibrante vida noturna da cidade — não sabia que estava prestes a registrar um dos momentos mais impactantes da história moderna.
O Registro do Inimaginável: Sete Minutos de Horror
Ao olhar pela janela de seu apartamento no segundo andar, Thuc viu a multidão convergir para o oeste, em direção ao World Trade Center. Com a torre norte envolta em uma fumaça negra e espessa, o instinto falou mais alto: ela pegou sua câmera de vídeo digital JVC e subiu na escada de incêndio.
Durante sete minutos e quatro segundos, Thuc filmou a cena. Seu vídeo captura a confusão, o choque dos pedestres e o momento exato em que o voo 175 da United Airlines atingiu a torre sul. Mais do que imagens, a fita registrou a transição do mundo: do momento em que as pessoas ainda acreditavam ser um “efeito especial de Hollywood” até a compreensão brutal de que se tratava de um ato terrorista.
Por que esse registro é tão valioso?
Dylan Williams, curador do Museu do 11 de Setembro, destaca que vídeos amadores dessa época são artefatos raros. Diferente de hoje, onde as redes sociais roteirizam a realidade, a gravação de Thuc é bruta e espontânea. Ela transmite a dissociação e o pavor em tempo real, oferecendo uma perspectiva íntima e humana do desastre.
O Peso do Silêncio e a Cura através da Memória
Após a tragédia, a vida de Thuc em Nova York desmoronou. O trauma de ver cartazes de desaparecidos espalhados pela cidade a levou a se mudar para Los Angeles. Por mais de vinte anos, a fita permaneceu trancada em um cofre, junto ao seu passaporte. Ela temia que as imagens contivessem cenas insuportáveis, como as pessoas saltando dos prédios.
Foi somente em 2022 que Thuc decidiu enfrentar seu passado. Ao doar a fita e a licença de exibição ao Memorial e Museu do 11 de Setembro, ela não apenas preservou a história, mas iniciou um processo de cura pessoal.
Legado e Documentação
Atualmente, a experiência de Thuc está sendo transformada em um curta-metragem documental intitulado “My Fire Escape” (Minha Escada de Incêndio). O projeto busca não apenas contar a história de Thuc, mas dar voz aos moradores de Chinatown, cujas vivências durante os atentados de 11 de setembro muitas vezes foram negligenciadas pela história oficial.
Hoje, aos 50 anos, Thuc finalmente assistiu às imagens digitalizadas pelo museu. Ela descobriu a calma em sua própria voz enquanto conversava com estranhos no meio do caos — um testemunho da resiliência humana diante do incompreensível.
Para saber mais sobre a preservação histórica desses eventos, você pode consultar os arquivos oficiais do National Archives dos Estados Unidos.
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