Cleitinho: Paladino do Povo ou Estratégia de Marketing? A Análise da Candidatura ao Governo de Minas

O Fenômeno Cleitinho: Entre o Viral e a Realidade Política
Com mais de 7 milhões de seguidores nas redes sociais, Cleitinho (Cleiton de Azevedo) tornou-se um nome central na disputa pelo governo de Minas Gerais. Sua estratégia é clara: utilizar a força do digital para se posicionar como um “paladino da moralidade” e um combatente do sistema. No entanto, ao analisar a trajetória do candidato pelo Republicanos, surge uma pergunta inevitável: Cleitinho é realmente antissistema ou apenas domina a arte da narrativa digital?
A Contradição do “Cidadão Comum”
Apesar de se dirigir ao eleitor com um tom de revolta, como se fosse um outsider da política, os fatos mostram algo diferente. Cleitinho soma quase uma década de vida pública institucional, tendo passado por cargos de vereador, deputado estadual e senador. Essa longa jornada nas engrenagens do poder contrasta com seu discurso de “inimigo do Estado”.
Seu método de engajamento baseia-se em narrativas polarizadoras de “nós contra eles”, simplificando problemas complexos da sociedade para gerar impacto emocional. Um exemplo marcante foi a postagem em que incentivou motoristas a desviarem de um pedágio na BR-040, transformando a lei em um “obstáculo do governo” e o desvio em um “ato de liberdade”.
Desinformação e Impacto Social
Um dos pontos mais críticos da atuação de Cleitinho é a sua relação com a verdade factual. Em janeiro de 2025, o senador foi peça-chave na disseminação de notícias falsas sobre a suposta taxação do Pix. Através de vídeos com forte apelo emocional, ele converteu medidas de fiscalização da Receita Federal em uma “ameaça existencial” para a população de baixa renda.
Esse episódio acionou o que especialistas chamam de Ecossistema de Desinformação, gerando pânico moral e desconfiança nas instituições democráticas. O conteúdo chegou a ser removido do TikTok após intervenção da Advocacia-Geral da União (AGU), mas o dano à percepção pública já havia sido causado.
Ética, CPIs e Alianças Questionáveis
A postura de Cleitinho em instâncias oficiais também levanta questionamentos. Durante a CPI das Bets, em maio de 2025, o senador demonstrou total descompasso com a gravidade do tema. Enquanto a comissão investigava o superendividamento de famílias brasileiras e fraudes de influenciadores, Cleitinho utilizou o espaço para gravar saudações alegres ao lado de uma das investigadas, a influenciadora Virginia Fonseca.
Além disso, o candidato mantém-se silente diante de graves acusações contra a cúpula de seu partido em Minas. O presidente do Republicanos no estado, Euclydes Pettersen, foi indiciado por organização criminosa e lavagem de dinheiro na Operação Sem Desconto. Para quem se diz defensor da moralidade pública, a falta de indignação diante de esquemas que prejudicam aposentados é gritante.
Análise do Plano de Governo: Promessas vs. Viabilidade
O plano de governo intitulado “O povo primeiro” apresenta metas ambiciosas, mas peca gravemente na execução técnica. Entre as principais lacunas, destacam-se:
- Ausência de Orçamento: Não há projeções financeiras ou estratégias claras de como as obras e programas sociais serão financiados.
- Negligência Ambiental: O plano ignora a reparação e a prevenção para comunidades afetadas pelas tragédias de Brumadinho e Mariana.
- Vazio Social: Não há menções a direitos humanos, combate à pobreza extrema ou políticas específicas para povos indígenas e quilombolas.
- Insegurança Minerária: Apesar de Minas ser líder na extração de minério, o plano omite a segurança da população que vive em áreas de risco.
Conclusão: O Risco do Populismo Digital
A eficácia de Cleitinho nas redes sociais é inegável, mas a governança de um estado como Minas Gerais exige mais do que engajamento orgânico e bordões virais. Ao instrumentalizar a cólera e o ressentimento social, o candidato caminha na direção do que os pesquisadores Levitsky e Ziblatt descrevem em “Como as democracias morrem”: a ascensão de líderes que utilizam a democracia para minar a própria democracia por dentro.
Para o eleitor mineiro, resta a análise: o discurso antissistema é uma ferramenta de libertação ou apenas uma estratégia para consolidar poder político?
Para conferir a documentação oficial de todos os candidatos, acesse o portal do Tribunal Superior Eleitoral (TSE).
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